Pesquisa contesta a ideia de que a luz artificial nos induz a dormir menos

Estudo descobriu os americanos dormem tanto quanto as pessoas de sociedades de caçadores-coletores, onde não há nenhuma eletricidade

04 DEZ 2015
Gonda

Há anos, as autoridades de saúde pública advertem que smartphones, telas de televisão e o ritmo agitado da vida moderna estão atrapalhando os padrões naturais de sono, gerando uma epidemia de insônia. De acordo com algumas estimativas, os americanos dormem de duas a três horas a menos hoje do que antes da Revolução Industrial.

Mas um novo estudo está contestando essa noção. A pesquisa descobriu que os americanos dormem em média tanto quanto as pessoas em três sociedades de caçadores-coletores, onde não há nenhuma eletricidade e o estilo de vida permanece basicamente o mesmo há milhares de anos. As comunidades incluídas nesse trabalho — as tribos Hadza e San, da África, e o povo Tsimané, da América do Sul — dormem menos do que muitos americanos.

Os médicos sugerem um mínimo de sete horas de sono para manter a boa saúde. Muitos estudos indicam que dormir pouco, independentemente de outros fatores, como atividade física, está associado à obesidade e às doenças crônicas.

Porém, os caçadores-coletores incluídos nesse novo estudo, publicado em Current Biology, estavam relativamente em forma, apesar de regularmente dormirem por períodos próximos aos da média mínima das pessoas de sociedades industrializadas. Pesquisas anteriores mostram que seu gasto energético diário é quase o mesmo da maioria dos americanos, sugerindo que a atividade física não é a razão para sua relativa boa saúde.

O suficiente para revigorar

A noção predominante na medicina do sono é a de que os seres humanos evoluíram para se deitar quando o sol se põe e que, em geral, ficamos acordados até muito mais tarde do que deveríamos porque estamos cercados de luz artificial, disse Jerome Siegel, autor da pesquisa e professor de psiquiatria na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Mas Siegel e seus colegas não encontraram nenhuma prova disso. Os grupos que estudaram, que dormiam ao relento ou em cabanas simples, não iam para a cama quando o sol se punha. Em geral, ficavam acordados de três a quatro horas após o pôr do sol, sem exposição à luz, exceto uma pequena fogueira.

Em uma noite típica, dormiam apenas seis horas — um pouco menos do que o americano médio. Nos Estados Unidos, a maioria dos adultos dorme sete horas ou mais por noite, apesar de uma parcela significativa da população dormir menos.

— Acho que esse estudo vai transformar a área. É difícil imaginar como podemos afirmar que a sociedade ocidental sofre de privação de sono quando esses grupos que vivem sem todas essas distrações modernas e agendas lotadas dormem menos ou quase a mesma coisa que o norte-americano médio — disse John Peever, especialista da Universidade de Toronto, que não estava envolvido na nova pesquisa.

Em junho, duas das principais associações da categoria — a Academia Americana de Medicina do Sono e a Sociedade de Pesquisa do Sono — recomendaram que os adultos devem dormir sete ou mais horas por noite regularmente. Ganho de peso, obesidade, hipertensão, doenças cardíacas e acidente vascular cerebral, depressão e aumento do risco de morte estão relacionados a dormir menos, de acordo com as sugestões.

Nathaniel Watson, presidente da Academia Americana de Medicina do Sono, salientou que, no novo estudo, descobriu-se que as sociedades de caçadores-coletores tinham um período de sono — ou seja, o tempo que efetivamente estavam na cama — de aproximadamente sete a oito horas e meia, o que, segundo ele, era consistente com as recomendações do seu grupo.

A questão de quanto tempo de sono as pessoas necessitam é delicada, segundo ele:

— Realmente, a quantidade ideal é a que permite que você acorde se sentindo revigorado e alerta.

Siegel disse que se preocupa com a ideia de definir um número de horas, pois isso poderia levar aqueles que dormem menos a recorrer a comprimidos para dormir, que têm efeitos colaterais graves.

Temperatura do ambiente pode ser a chave

Muitos pesquisadores argumentam que a invenção da lâmpada elétrica no final do século 19 mudou drasticamente nosso sono: a exposição à luz artificial durante a noite desregula nosso relógio biológico, atrasando-o e reduzindo-o. Porém, Siegel questiona essas afirmações.

Os grupos estudados não vão dormir com o pôr do sol e não acordam quando ele nasce, o que sugere que a exposição à luz não tem muita influência sobre seus padrões de sono – mas quase sempre adormecem quando a temperatura começa a cair durante a noite e acordam quando ela começa a subir novamente. Isso sugere que os seres humanos podem ter evoluído para dormir durante as horas mais frias do dia, talvez como uma maneira de economizar energia, disse Siegel:

— Hoje, dormimos em ambientes com temperaturas fixas, mas nenhum dos nossos antepassados fazia isso. Evoluímos para dormir em um ambiente natural, onde a temperatura cai à noite. Se pudermos tratar a insônia colocando as pessoas em um ambiente onde a temperatura é modulada desta forma, é algo a ser estudado no futuro.

Fonte: ZH Vida
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